11/03/2018

A luz de uma estrela



*
Um bem metido na cabeça é uma coisa em que se acredita tanto. Um avô inspira o neto a fazer um livro sonoro para oferecer ao outro avô, que é cego. Numa produção própria, o neto dá voz ao livro O Caderno do Avô Heinrich, de Conceição Dinis Tomé. As coisas do momento são: entusiasmo, uma garganta afinada, um livro aberto, um computador, muita cumplicidade.
Um, dois, três, som…

**
O enternecimento nasce em qualquer lugar. Às vezes, é maior do que o ser humano. Num vagar de membros hirtos, o outro avô comove-se. Chora. Os dedos sobem lentamente pela face do neto, percorrem a pele macia, descem pelo pescoço, e juntam-se à mão, que cabe ainda na sua. É assim que se prepara para ouvir a história: com a emoção de quem acomoda na palma da mão uma concha preciosa. O avô escuta o primeiro capítulo com toda a atenção que tem no corpo, os olhos húmidos, rentes ao coração. Há um brilho que vem da voz do neto e que se acende ali, nas palavras lançadas no ar, como pontinhos de luz na escuridão. 

***
Uma história contada em voz alta é mais do que papel. Tem profundidade. Tem espessura. É um mundo que nasce através de uma voz, e que nasce por ela. É o eco de um corpo, que é acolhido noutro corpo, e que se propaga como a luz de uma estrela que já morreu.