13/03/2018

A meta



Um vento forte soprava do mar, trazendo vagas de chuva, ruidosas como pedras pequeninas lançadas à janela. Era domingo, e estava-se bem em casa. Preparei um chá, acendi uma vela e abri um livro enquanto aguardava o toque da campainha. Por fim, ela chegou. Abri a porta e uma onda de perfume veio ao meu encontro. Trazia olhos escurecidos e sombras no rosto. Pendurou o casaco manchado de chuva e sentou-se no extremo do sofá. Bebeu um golo de chá, suspirou e começou a falar-me da sua vida escondida. As palavras eram as mesmas de sempre, alternando entre a mágoa e a fúria. Mas havia nelas um tom de desfecho que eu desconhecia. Acusava e recriminava-se ao mesmo tempo. Por que não se deixara apanhar? Por que não gritara um sim para contrariar um não? Não o sabia explicar por palavras, nem mesmo a si própria. Habituara-se a viver num pacto silencioso. Mas havia uma verdade mais que real. Existira algo que os unira. Mas que não uniu. Queriam ser os melhores em tudo. Prontos para as distâncias, corriam o mais que conseguiam. Pernas compridas, cabelos ao vento, corpos a zumbir como um motor em marcha. Aos olhos dos outros, eram o casal perfeito. Vitorioso, medalhado, reluzente. Mas a vontade de chegar a horas a todo o lado fê-los esquecer que corriam em direções opostas. Corriam sem cedências, fingindo não ver o que deixavam para trás. E quanto maior era a fraqueza que se lhe enrolava no peito, mais depressa corriam. A dor de pernas distraía-os da dor interior.
Num gesto que podia ser de derrota, as rugas vincadas nos cantos da boca, a chuva do dia dissolvida na voz, pousou vagarosamente a chávena vazia sobre a mesa. E eu não fiz mais perguntas. Compreendi finalmente o tom de desenlace das suas palavras. O holofote estava prestes a apagar-se. Fora ela a primeira a cortar a fita da meta. A primeira dos dois a chegar à solidão.