24/03/2018

Anjos caídos


Na igreja havia uma escuridão que me distanciava de tudo. Apenas a luz de algumas velas acesas diante do altar-mor desenhava pequenos clarões na penumbra. Não havia ninguém a rezar àquela hora. Sentei-me num dos últimos bancos, naquele que me pareceu mais longe da orla do mundo. Não sei quanto tempo fiquei assim, os pés demorados no chão, a respiração regulada pelo silêncio, a compreensão serena das coisas. Estava quase a adormecer dentro de mim, quando a porta rangeu nos gonzos e uma nesga de luz da rua entrou na igreja. Um homem, alto, magro, de cabelos desgrenhados, passou por mim, sem me ver, arrastando os pés. Vestia um sobretudo demasiado grande para a sua estatura e trazia um saco de plástico na mão. Avançou lentamente na direção do altar-mor, detendo-se na primeira fila de bancos. Traçou um sinal da cruz e ajoelhou-se. Manteve-se assim durante muito tempo, imerso na sua prece. Do banco onde me encontrava, entrevia na sombra o contorno dos seus ombros, a cabeça levantada, apontada para o altar. De repente, ouvi um soluço profundo. Depois, outro e outro, seguidos de um choro frágil, contido, entrecortado por palavras quase sussurradas para dentro, que se espalhavam pelos cantos da igreja. Julgando-se a sós com Deus, o homem dava extensão ao seu sofrimento, a voz a ganhar força, as mãos postas, agarradas à dor. Fiquei aflita, assustada, sozinha com uma dor que, não sendo minha, parecia vazar em mim. A tristeza é a corrente de um instante. A aproximação de uma verdade que, no escuro, começa a amanhecer. Num qualquer lugar remoto de mim, senti uma dor espessa, indiferenciada, escorregadia, ardente, como uma cólica lenta, a rolar, a crescer, a abrir caminho. Quando se converteu em algo abundante, desmesurado e irreprimível, não pude mais. Comecei a chorar, a chorar sem apelo, sem nada pedir, sem compreensão. Chorei por mim, pelos meus, pelo homem que não conhecia, mas de quem me sentia próxima - mais próxima do que do olhar de Deus Todo-Poderoso - e chorei por outros milhões de iguais: anjos caídos como eu, de asas feridas, presos a realidades perdidas como a um cordão umbilical, condenados a marchar sobre espinhos cristalinos de luz.