16/03/2018

Contra todas as evidências em contrário, a alegria *


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Sai muito cedo de casa, ainda a embrulhar o cansaço do dia anterior no corpo. Apanha uma camioneta, um barco e um autocarro. Caminha depois centenas de metros, os sacos pendendo dos braços como cachos, a manhã afiada pelo ruído dos carros. Nunca chegou tarde a lado nenhum. Sou mais pontual do que o sol, diz-me sorrindo, enquanto aperta o botão do elevador. Tem feições arredondadas, de bonomia, uma riqueza no olhar e uma cicatriz discreta na face direita. Visita a filha todos os dias no hospital. Abraça-a muito. Afaga-lhe a pele ferida pela agudeza dos ossos. Acolhe no peito o volume do corpo sem peso, como a asa de um anjo, que já não arrisca o voo. E, apesar das horas compridas, passadas a limpar dois escritórios e duas casas, ainda lhe restam forças para erguer a filha da cova vazia onde se ajoelhou. Amanhã, é outro dia. É a promessa que o seu coração dita, sem saber se será ou não.

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No barco, depois de um dia de erros e acertos, a cidade apequena-se. As gaivotas mergulham as patas na água gelada, e o rio e a terra não fazem concordâncias. É então que se deixa vogar de dor em dor, de ilha em ilha, por um arquipélago de crostas que endureceram dentro de si. Sente as dores do parto, que são sete, gravadas no côncavo morno do corpo, como os anéis nos troncos das árvores. Sente as dores da maternidade, o medo de ficar doente, o medo de não conseguir empurrar o destino dos filhos. Sente a dor de estar viva. Às vezes, verte duas lágrimas que fazem aumentar o rio.

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Em terra firme, as sombras das árvores balançam nas poças de água. Um vento sem quadrante empurra as horas para a última parte do dia, fazendo-a correr para a paragem da camioneta. O casaco cheira-lhe a frio. Uma ardência premente, um grão de poeira a ferir-lhe a córnea recordam-lhe a existência de uma mão viva. A sua expressão torna-se menos vaga. Há um rumor na barriga, o apelo de uns ovos mexidos numa frigideira, a saliva que lhe cresce na boca. Por baixo do lume quente da pele, há um rio que corre. Fulgências, deslizamentos, em sibilante convicção. Coisas de um corpo insubmisso, que cumpre escrupulosamente a sua natureza, apesar do mundo em pedaços. E é na vertigem dessa urgência, desse tempo de coisa nenhuma, que avança para o alto prédio onde mora, para os jogos das crianças, para o homem que talvez a espere com flores na mão, para uma chávena de chá e para a manta de lã que estenderá suavemente sobre as pernas.

[Para a N., minha companheira de viagens de elevador.]

* Manuel Gusmão, Teatros do Tempo