10/03/2018

Perfil



Sou uma mulher. Com cabelos compridos e corpo quebradiço. A minha fragilidade requer muitos cuidados intuitivos e algumas mentiras. Finjo que não estou só no mundo. E que é mais fácil amar. A minha segurança é escorregadia. O meu mundo é breve. Gosto de caminhar na ponta dos pés. Não gosto do ruído de sapatos. Inventei um relógio para a minha própria velocidade. Fujo para fora da órbita de tudo. Gosto de alargar possibilidades. Nunca deixei cair uma carteira aberta no chão. A trivialidade da minha intimidade nunca foi exposta ao mundo. Guardo tudo preso no peito. Gosto do meu corpo silencioso. Da respiração curta e leve por baixo da roupa. Gosto de simplicidade. E de corações pensativos. Gosto de contar histórias. De ter coisas brilhantes dentro de mim. Nem tudo o que invento é mentira. Há mágoas antigas que abandonei e nelas crescem agora trilhos de ervas. Nunca me senti garantida em lugar nenhum. Há coisas que continuo a não fazer. Mas não com a mesma convicção. Nunca disse asneiras. Nunca desenhei corações trespassados por setas nas mesas da escola. Nunca gravei o meu nome a canivete no tronco de uma árvore. Mas já roubei flores de um quintal. Sento-me sempre com as pernas unidas. E tenho mais sonhos que garras. De resto, sou serena. E creio que comecei a sorrir quando descobri que a tristeza é uma alegria difícil.