06/03/2018

Rebuçados de mentol



A funcionária da caixa do supermercado ainda não me perguntou por que razão compro todos os dias rebuçados de mentol. Mas por trás de uma banalidade há sempre um mistério que envolve um destino. Tudo começou no domingo, quando acordei um pouco surdo do lado do coração. Foi essa a primeira de uma sucessão de ocorrências estranhas. Mais tarde, quando estava sentado à mesa da cozinha a molhar uma madalena no chá, senti algo tépido e trémulo a raspar-me o rosto, como um pássaro ou a cortina do duche. Pouco depois, comecei a sentir-me vago e indistinto. Mas o mais insólito estava ainda para acontecer. Eis o que se passou: estava eu à janela a cronometrar a descida do sol até ao telhado do prédio mais baixo da rua, quando vi surgir numa esquina dois jovens aos beijos. Aquela atividade febril despertou em mim o súbito desejo de recordar o meu primeiro amor. Mas não consegui lembrar-me de nada. Como era possível não recordar o que, certamente, fizera o meu mundo girar? Por mais que tentasse ler a memória, esta parecia ter-se encarquilhado como um papel queimado. Intrigado, comecei a vasculhar no passado. Encontrei as memórias empilhadas umas em cima das outras, crivadas de agrafos e números. Na prateleira mais difícil, estavam apenas duas ou três amarfanhadas e entaladas entre a morte da minha mãe e a operação à próstata. Eram coisas antigas, cheias de mágoa, que me comoveram bastante. Mas da memória do meu primeiro amor, nem sinal. Tê-la-ia apagado por engano? Perdera-a a caminho da consulta de geriatria? Fulminado por esta possibilidade, liguei para a Secção de Achados. Uma voz feminina informou-me que, para o efeito, teria de me deslocar ao local para preencher um formulário. Mas adiantou que se a memória em causa era boa, nem valia a pena dar-me a essa maçada, posto que essas nunca eram devolvidas. As pessoas guardavam-nas para si. Acrescentou que o depósito estava atulhado de lotes de memórias tristes que ninguém reclamava, e que acabavam por ser leiloados a escritores, cineastas e artistas. Desliguei o telefone e deitei-me no divã, sentindo as pernas a tremer. Empalideci quando compreendi que o que não podia ser recordado era como se nunca tivesse existido. Tentei lembrar-me dos amores seguintes, mas estes pareceram-me desarticulados e incoerentes. Sem prelúdio, afiguravam-se incompletos. Lembrava-me de ter lido num livro que os amores se assemelhavam a bonecas russas. Cada amor continha, e era contido noutros. Desapossado do meu primeiro amor, estava também privado dos que se lhe tinham seguido. Pela primeira vez, senti a angústia de um homem que nunca deslizou os dedos por entre os cabelos de uma mulher. Tudo isto aconteceu no domingo. Agora já não transpiro. Tenho a parte esquerda do corpo dormente e esqueci-me de que lado fazia o risco no cabelo. Tudo o que sei do amor é o que está escrito na palma da minha mão. E trinco rebuçados de mentol por causa dos amargos de boca. Prendo-os nos dentes com tamanha voracidade que, às vezes, chego a morder a língua. É assim que me convenço de que não morri no dia em que o chão se me abriu debaixo dos pés e enterrou os amores de uma vida inteira.