10/04/2018

Anatomia de um sim


A tarde ia já avançada quando entrei no prédio, fustigada pelo vento e pela chuva. Uma hora a menos de sono, aliada a uma tarde difícil, coroada de emoções fortes, tinham-me reduzido a um estado de cansaço agudo. O corpo pedia-me um sofá manso e silêncio. No átrio, no canto que costumo designar de esquina do parlatório, ao lado de uma frondosa avenca, esperava-me a vizinha do rés-do-chão. Zeladora de intimidades e horários, dona de um gato, boa pessoa, é ela que melhor conhece os condóminos pelo som dos passos. Sem prelúdios, convidou-me para um chá e uma fatia de bolo de banana. Confesso que me senti relutante, quase encurralada, perante aquele desvio ao meu bendito plano. Mas tinha a mente demasiado embotada para inventar um pretexto mais honroso do que um vulgar quebrantamento. Fiquei assim, no que me pareceu uma eternidade, escutando a minha audível e viva resistência. Mas não sei se foi o cheiro apetitoso que evolava da porta entreaberta, se os seus olhos verdes a prenderem-se nos meus, se a picada de tristeza que senti quando me disse, com um vago encolher de ombros, Deixe estar, fica para a próxima, que me fez virar o coração a seu favor. Sei apenas que, de repente, dei por mim a dizer Teria muito gosto, cedendo a uma qualquer misteriosa razão que vencia o meu solipsismo. Quantos tipos de sentimentos e contradições não estarão comprimidos no sinuoso curso de um Sim?