05/04/2018

É de noite, e estou na rua

Quando fecho os olhos, uma alegria triste vem até a mim, como uma estrela a toda a largura do céu. Não tenho nenhum desejo pronto. Há meses que me esqueci que posso ter desejos. Mas conheço o doce abraço das coisas perdidas. Descobri que as coisas só se tornam verdadeiramente nossas quando as perdemos. A minha tristeza não é lamacenta. Mesmo quando choro, tenho um brilho sorridente nos olhos. Deve ser por isso que não me levo muito a sério. Hoje, enquanto conduzia, contava pelos dedos os sonhos e as pessoas que perdi. É a minha forma de criar raízes. E pensei também nos papagaios que deixei escapar na infância. A minha vida é longa, e a viagem demorou três horas. Não sei se foi o cheiro fugaz a chuva, se a ária de Mozart que tocava no rádio, mas dei por mim de olhos húmidos, a pensar que sou uma criança alegre que cresceu depressa de mais.