02/04/2018

Licença


Apanhaste-me desprevenida, com o coração desarmado. Atiraste umas palavras para o ar, próximas, fulminantes, e eu, toda ouvidos, sem plano de fuga, fui trespassada por elas. À deriva, ziguezagueando, sentei-me no rebordo do passeio, de joelhos contra o queixo, o norte perdido, o corpo caindo sobre mim, as pernas demasiado curtas para correr. Pessoas acorreram do outro lado da rua. Varreram estilhaços e sentimentos do asfalto e marcaram a giz a trajetória exata entre as tuas palavras e o meu coração. Um vaivém de flores e luzes fundiram-se nos meus olhos cegos. Tinha a blusa colada ao peito, encharcada de um eflúvio de delírio quente, da cor de vinho entornado. Tentaram levar-me dali à força, mas não deixei que me movessem, decidida a dar o corpo às palavras, a ser feliz ali. Um socorrista desabotoou-me três botões da camisa, preparando-se para remover os corpos estranhos com uma pinça. Mas, alojadas vários centímetros abaixo da epiderme, as tuas palavras borbulhavam já dentro de mim, quentes, macias como morangos desfeitos, carne, sangue do meu sangue. Não me ocorreu perguntar-te, no momento em que as lançavas em todas as direções, se aquelas palavras fortuitas se destinavam a mim. Devia tê-lo feito. Devia ter acionado o estado de alerta. Mas, na altura, não sabia ainda que se tratava de uma questão de vida ou de morte. Acreditei nas tuas palavras e vivi-as com uma intensidade que ultrapassou tudo o que eu considerava possível. Agora que os teus lábios se fecharam para mim, lembrá-las deixa-me a boca em ferida. Dizes que foi um acidente de percurso e adormeces todas as noites sem remorsos. Finges que o que disseste não te diz respeito. Mas é pelas palavras, mesmo as mais doces, que se morre. É por isso que devia ser obrigatório tirar licença para usar determinadas palavras, como se faz para o porte de armas.