07/04/2018

Lleva tiempo llegar a ser joven


Hoje levantei-me cedo. Despertei com o cantar do galo que por aqui vive, e fui caminhar junto à marulha, sozinha com os sons ininterruptos da cidade. Gostava de escrever o que sinto, mas estou longe das palavras. Dei várias voltas, passei pelas doze torres, mas não saí da mesma página.

No palácio onde entro para visitar a exposição Picasso Sueños grabados impera um odor doce e pesado. Uma mulher na casa dos setenta, cabelo de imaculada brancura, costas curvadas, avança devagar, apoiada numa bengala, os olhos postos nas gravuras. Detém-se por instantes diante da máxima escrita na parede: Lleva tiempo llegar a ser joven. Encolhendo os ombros, como querendo sacudir para longe a descrença que lhe pesa nas costas, exclama na língua de Goethe: Está bem. Vou acreditar que as coisas agora vão começar a melhorar. Mal não fará. Picasso teria ficado contente.

Na rua, Camus segreda-me ao ouvido que a vida é absurda, e que, por isso, devemos inventar regras para nós próprios. Concordo. Eu comecei a rejuvenescer quando descobri que a verdade é aquilo que me faz ser melhor.

Chego a casa e retiro do bolso o bilhete da entrada, levemente azulado por ter estado no bolso traseiro das calças de ganga. Usá-lo-ei para marcar o poema de Kabir, que escolhi para poema do dia: 

Se estás vivo

aproveita a vida              A vida

é um desses convidados

que não te visita duas vezes