05/04/2018

Nas arcadas

Sinto um toque frio na ponta do nariz. Podia ser uma pétala, mas é uma pequena gota de chuva. É um aviso. Para bom entendedor, uma pequena gota basta. Refugio-me debaixo das arcadas antes de uma nuvem gigante começar a  escurecer o dia, e o céu se desfazer em água. Atrás de mim, um grupo de turistas acompanhado pelo respetivo guia corre, apressa-se, com as máquinas fotográficas a balouçar ao pescoço. Um cheiro húmido desce pelas paredes. Tenho frio. De repente, uma mão delicada, quente como um sol pequenino, enlaça a minha com inusitada familiaridade. A mãozinha pertence a uma menina de caracóis louros, que me toma certamente pela mãe. Os meus filhos acotovelam-se, sorrindo. Mas a menina permanece ao meu lado, a cabeça reclinada no meu braço, esquecida de qualquer intento, os olhos postos na praça deserta, abandonada a uma confiança silenciosa que me enternece. Na amálgama de rostos, descubro a mãe, que me sorri e, aproximando-se, me faz sinal para que não desperte a filha do seu estado de inocência. Não me importo nada. Sinto-o como uma prenda. E, naquele momento, tudo faz sentido. O rumor da chuva, o cheiro da terra, a melancolia da torre da igreja, o pulsar morno da mãozinha delicada, como um pardalinho abrigado da chuva, um fio transparente a passar entre mim e o mundo. 
Muitos pingos de chuva depois, a menina deu conta do engano, perante o olhar enternecido dos presentes. Olhou-me surpreendida, depois apavorada, como se eu fosse uma aparição demoníaca. Largou a minha mão e correu para a mãe, abraçando-lhe as pernas com todas as forças. A chuva cedeu por fim, o sol cobriu a praça com um manto de prata, trazendo os pombos, as janelas abriram-se e o vozear dos turistas e o cheiro a  fritos voltaram a desaguar na cidade.