07/04/2018

Sete da tarde, já em casa


Nestes últimos dias não fiz outra coisa que não fosse demorar-me longamente nos sítios que visitei. Não vi muitas coisas. Mas do pouco que vi, acredito ter visto muito. E para tal, fechei muitas vezes os olhos. Viajar é também isso: fechar os olhos. A perceção necessita de tranquilidade e de contemplação, porque não somos nós que viajamos pelos países, mas os países que viajam por nós.
Não tirei muitas fotografias, mas observei pessoas a tirá-las. Vi como preparavam elaboradamente a pose, transformadas em modelos humanos, ora sorrindo, ora cheirando uma flor, ora abraçando uma coluna jónica. Diante de uma catedral gótica, de uma casa senhorial ou de um anfiteatro romano, recriavam-se, num encontro marcado consigo mesmas. A fotografia às vezes distancia-nos das coisas. Rouba-nos o cheiro, o tato, a espessura, o imaginário, a profundidade. O corpo, o tecido vivo que nos sustenta, precisa de contacto direto. A beleza é um tesouro cujo mapa trazemos escondido dentro de nós. E para compreender uma ruína, a morte e a melancolia que nela habitam, é preciso tempo, demora, maturação.
Não trouxe muitos registos, mas gravei na minha memória imperfeita, tão confiável como um vendedor de carros em segunda mão, tudo o que me fez sair de mim. Guardo a viagem da viagem. Guardo o cheiro de algumas pedras da muralha, a luz suave do sol do fim de tarde a flutuar na copa das laranjeiras, os ninhos das cegonhas na torre das igrejas, o calor de uma mão pequenina na minha, os olhos castanhos – tão mortais – da mulher com o colar cor de âmbar, o olhar sorridente de um homem e de uma mulher e o orgulho de pertencerem um ao outro, o homem idoso que empurrava uma mulher numa cadeira de rodas e que cantava com uma ponta de tristeza na voz: Por el amor de una mujer, jugué con fuego sin saber, que era yo quien me quemaba.