20/04/2018

Um abraço de terra quente


Debaixo da buganvília, ouço as rodas de uma cadeira a soarem na calçada, juntamente com um acorde de gargalhadas. Um homem alto e robusto caminha lentamente ao lado de Renato, ligeiramente inclinado para a frente, rindo. Contam-me que é um amigo de infância, ainda dos tempos de África, e que foram necessários mais de trinta anos, muitos atalhos e voltas cegas para que descobrisse o paradeiro de Renato. Está uma tarde primaveril, sem vento, auspiciosa. Duas crianças brincam à apanhada na relva e um cão rola sobre o dorso, não muito longe dos dois amigos. Renato está verboso, feliz, o rendilhado de sombras da buganvília no rosto. Apesar de falar com esforço, deixa as palavras voar com alegria, como uma explosão de coisas guardadas. O amigo, sentado no rebordo de um canteiro alto, escuta-o com um sorriso aberto. Enlevados, divertidos, lançam punhados de memórias, contam histórias passadas, recordam rostos, lugares, como tilintares distantes nos ouvidos. Renato lembra as brincadeiras, os jogos, as aventuras de um tempo em que não precisava ainda de uma cadeira de rodas. Está bonito. É difícil não se ser bonito quando se está feliz. A tarde alonga-se e cheira a árvores. E os dois amigos despedem-se com palavras acaloradas. Não falaram de tudo. Uma tarde é pouco para relembrar toda uma infância. Ainda assim, há histórias que não se perdem, mesmo que não se contem. Renato tem os olhos húmidos. Talvez chore de alegria, talvez chore de tristeza. Talvez chore simultaneamente o reencontro e os trinta anos perdidos. Porque a vida é também a arte de perder. O amigo curva-se e envolve Renato com os dois braços. Mais que um abraço, é a brevidade e a duração de duas vidas que se abraçam, é a vida e os seus labirintos, é a amizade e a fragilidade de tudo isso. E é um rasto de terra quente, a fazer relembrar o vermelho de certas tardes no horizonte de um país africano, agora tão longínquas como um sonho.