15/04/2018

Um bosque encantado


No meio da agitada aglomeração de pessoas que entram e saem do café, das várias imagens que se me oferecem, entrego-me apenas a uma única, uma avó a ler para o neto. Queixo metido para dentro, olhos pregados às palavras, lê numa voz ligeiramente trémula, com profundo sentimento, como se a história soprasse dentro de si um tropel de recordações da infância. O menino, que não deve ter mais de cinco anos, escuta-a com todos os sentidos, o corpo arredondado à volta do livro aberto sobre a mesa. De vez em quando, ergue os olhos sonhadoramente deleitados para fazer perguntas ou acrescentar sentidos que se esboçam dentro de si. A avó olha-o com olhos luminosos, cheia de benquerença. Nesses momentos, riem-se muito, com gargalhadas vindas do fundo da garganta. De onde me encontro, percebo que a avó sabe que uma ideia que passa pela cabeça de uma criança se perde no nada se não for apanhada por alguém. Pressinto que a história já caiu para fora do livro, que é carne que respira, que eles próprios são já personagens, embrenhados em fantasias que se ramificam umas nas outras. Nenhum deles parece ter pressa em chegar ao fim. Avançam devagar na história guiados por um maravilhoso encanto, como quem atravessa um bosque num dia calmo e lento. Imagino-os a pisar suaves tapetes de musgo verde, descobrindo um tronco caído, canteiros de cogumelos e fetos, inspirando a seiva que sobe nas árvores, detendo-se para estudar a pegada de um animal na terra húmida, espiar um súbito frulhar de asas ou um estranho guinchar, comprazendo-se com o murmúrio das palavras que fluem como a água de um pequeno regato, onde a pureza do céu se reflete.