19/04/2018

Unir pontos


Um dia é feito de uma série de pontos dispersos, confusos e desordenados, desenhados a giz e pó. É esta a banalidade do quotidiano que nos engole. Para criar um sentido é preciso somar e subtrair pontos. É preciso fazer escolhas, depurar. Mesmo quando damos o dia por terminado, há sempre algo embrionário, algo por acabar. Talvez porque o fim de um dia é afinal o início de um outro, ou talvez porque qualquer um de nós é sempre melhor do que os dias que tem. Ainda que nem sempre o consiga, faço por não deixar escapar o valor dos meus, mesmo daqueles que são um condensado de desacertos, desencontros e preocupações. No meio das trivialidades da minha vida, de uma ida ao banco, das compras do supermercado, dos telefonemas, das obrigações profissionais, há sempre pequenas coisas, aparentemente insignificantes, que vivem nos interstícios. Os dias não são banais porque se esquecem, mas esquecem-se porque são banais. Por isso, é preciso iluminá-los com um sentido, deixar-lhes uma marca, nem que, para tal, tenhamos de virar a pedra do anel para dentro. A nossa vista é fraca para distinguir o clarão de cores que as repetidas sucessões de tempos teimam em desbotar. Mas elas estão lá. Às vezes, basta olhar o mundo com uns olhos à Cézanne, sem outro propósito que não o seu próprio acontecer, para sentir uma sintonia, a sedução das coisas simples, a sensação de se estar vivo. Pode ser a árvore ao pé de casa, iluminada pelo sol da manhã, a fazer-se bonita e a encher-se de rebentos tenros e translúcidos, pode ser o Quarteto nº 3 de Beethoven ouvido enquanto se conduz junto ao mar, o ventre de uma gaivota que resplandece no azul límpido do céu, uma flor colhida por um filho num copo de água, o sol que amorna a pele, um gesto que soube a água fresca, um coração exposto num sorriso, um poema que parece que foi escrito para nós. Os dias são também o que fizermos deles. Há quem pinte em papel, há quem pinte em tela, eu, que não sei pintar, traço significados como fazia na infância quando unia uma sequência de pontos para obter uma forma. 

[Já morri várias vezes. Da última vez, há poucos meses, pensei que fosse de vez. Mas não foi. E isso leva-me a crer que me falta densidade, que sou superficial. Não sou servil às minhas angústias. Posso estar na maior das aflições, mas basta-me o cheiro áspero de uma flor campestre, uma conversa bonita, uma árvore embrulhada numa nuvem, sei lá, essas coisas, para me tirar da terra e fazer-me andar em cima de um fio esticado no céu. É por isso que nunca passarei de uma amanuense. Na escrita e na vida.]