18/05/2018

A beleza

A cada verão, assim que chegava a casa da minha avó, tinha de ir logo ver o mar. Fazia questão de ir a seguir ao almoço, à hora em que a aldeia se entregava a uma paz fosforescente e a vida era contida pelo sol a pique. Como uma dentada, o verão acendia em mim um fulgor. O embate do calor, o torpor das horas mortas, o silêncio quase estonteante das ruas estreitas, apenas quebrado pelo ocasional barulho de pratos e talheres vindos de uma porta entreaberta, faziam-me sentir uma alegria imensa que se infiltrava pela alma adentro. As sombras estavam ainda coladas às paredes das casas e os frisos da cor do mar que debruavam portas e janelas pareciam mais vivos. Aqui e acolá, havia um gato que dormia encostado a uma janela, um fogareiro ainda quente no meio da calçada, o suave ranger de uma portada de madeira, uma corda com lençóis brancos, luminosos, um vaso de flores despreocupadas. Todas as ruas iam desembocar no mar. Na rua principal, o senhor Álvaro, que tinha grandes orelhas espetadas, abria a loja de tecidos finos para o turno da tarde, enquanto a Dona Maria Henriqueta varria a entrada da mercearia, que fazia também de posto de correios. Do outro lado, no areal, os pescadores de rostos burilados pelo sol e mãos endurecidas pelo sal consertavam as redes. Sempre com o marulhar macio do mar a acompanhar-me, passava pela fortaleza, pela ermida, os chalés debruçados sobre a praia, a desafiar as investidas do mar no inverno, as folhas das palmeiras a recortarem o azul do céu. E, por fim, sentava-me num banco contemplando a baía banhada por uma luz líquida dourada, digna de um pincel de artista: o cheiro a maresia, as algas que secavam nas rochas na baixa-mar, a estridência dos chapéus-de-sol na areia, os barcos, o rasgar branco de uma gaivota que aflorava o azul com a ponta das asas. E o mar, o mar, o mar. Absorto em si mesmo, compacto, cintilante, impassível na sua imensidão indizível. A beleza é o que ouvimos quando todas as vozes dentro de nós se calam. E tudo aquilo era para mim um encanto acabado de estrear, um oásis a que se chegava depois de ter atravessado um deserto. Esmagada pelos brilhos, cores e gradações, por toda aquela intensidade insustentável, eu sentia um aperto irreprimível no coração. Às vezes, chorava. Só mais tarde compreendi a razão. A beleza faz-nos sentir tudo aquilo que nos falta. Tal como no amor.