23/05/2018

A impostora

Marina Abramović, Me and Me II, 2008


Uma amiga disse-me há tempos que, cada vez mais, é preciso desconfiar de toda a gente. Eu não disse nada na altura, mas fiquei a pensar no que significará toda a gente. É que toda a gente é um conceito abstrato, inumerável. Devemos incluir nele também a família e os amigos? Eu, na verdade, desconfio mais de mim do que dos outros. E, acreditem, sou muito minha amiga. Mas dentro de mim, vive uma embusteira que me mente, intruja e engana. Engenhosa e ardil, apresenta-se sempre pronta a fechar os olhos ao que não lhe é conveniente. Exímia em escusas, pretextos e induções, é razoavelmente rápida a forjar meias-verdades em proveito próprio. De tudo faz um figurino à sua medida. Introduz sempre um fulgor onde não existe nem beleza nem graça. Da estreiteza de um corredor faz a Galeria de Espelhos de Versalhes, de uma poça de água lamacenta, um lago azul bordado de pequenas ondas. É certo que o faz sempre à minha vista, com a conivência devida ao facto de os sentimentos de uma serem imediatamente acessíveis à outra. E conjuga habilmente miragens e violinos com cegueira. Afinal de contas, uma mulher é aquilo que quer ver. E é assim que ela, essa eloquente impostora, essa incansável aranha negra, me faz viver envolta em sedosas teias de ilusão, que me impedem muitas vezes de distinguir o sonho da realidade. Ela bem me diz que me quer ver feliz, e eu sei que as suas intenções são as melhores. Mas a felicidade, esse archote ténue, sempre prestes a apagar-se, será realmente o mais importante na vida? Ontem, mandei-a embora. Libertei-a, quebrei grilhetas. E ela foi, rindo-se, desvairada, levando consigo cestos de rosas e tomilho e luares de verão. Agora que me aproximo da verdade, que é um doer mais frio, que as minhas pernas ficaram mais curtas, tenho de me orientar sem ela, neste mundo repleto de sinais a indicar o inferno.