06/05/2018

As mães


Uma mãe nasce devagar quando aperta um filho nos braços, quando nela, entre ondas de dor, uma cama desfeita, noites de vigília rasgadas de choros, seios cheios e canções cantadas baixinho, cresce uma serpentina que sopra sem fim: uma garantia de amor. Logo que começa a nascer, uma mãe pensa que o filho já é feliz antes de vir ao mundo, que o útero é um sítio inocente e os seus braços um caminho sempre a direito para a felicidade. O que ela não sabe ainda é que abraços e beijos tratam dores de barriga e constipações, mas não curam almas. É certo que, às vezes, de um fino regato ela consegue fazer um caminho para o mar ou inventar um pouco mais de céu para a terra. Mas uma mãe é uma deusa de barro. Por vezes, faltam-lhe pés, mãos e asas para o chão que se abre e leva com ele a confiança de uma vida. As mães caem muito. Há sempre um pé torcido, uma cara contundida, um ombro deslocado. Ainda assim, têm sempre um frasco de mel na mesa, uma maçã descascada, uma fita de seda para prender um cabelo em desalinho, um colo quente no inverno. As mães têm uma invencível benquerença. Talvez uma mãe seja um bocadinho mais deusa quando acredita na fé que os filhos põem nela e se perdoa pelo que não pode mudar. Talvez se torne até numa pessoa melhor quando desce do pedestal onde a colocaram, e onde ela própria se deixou colocar, e se reconcilia com os seus pés descalços, as mãos desajeitadas, os olhos frágeis e humanos. E talvez esse seja o dia em que nasce verdadeiramente como mãe, quando adormece sem culpas e remorsos, apenas com o amor encostado ao peito, como uma tatuagem de rosas e espinhos à volta do coração.