08/05/2018

Deusa por um dia


Contava eu as moedas para inserir na máquina de bilhetes do metro, quando um bonito jovem, sorrindo com todos os dentes, se acerca de mim. Alegando ter perdido a carteira, pede-me gentilmente cinquenta cêntimos, que é a soma que lhe falta para comprar o bilhete. Embora não totalmente convencida da justificação que me é apresentada, assumo o ar da inocência personificada e abro o porta-moedas, decidida a patrocinar a sua viagem. O jovem agradece-me efusivamente e, com uma voz envolvente que lembra a do jornalista Luís Caetano, diz-me, A senhora para mim hoje é uma deusa. Uma deusa? Ora esta! Aquilo ficou-me a repicar na cabeça como num telhado de zinco. Sim, porque uma mulher não é de ferro, é mais de zinco. Minhas amigas, eu sei que tudo pode ser visto de diferentes prismas. Podemos pensar que aquele jovem de sorriso alvo era, na verdade, um manipulador brilhante, um maquiavélico praticante da máxima de Bernardo Soares Para viajar basta existir pedir ou até um rocambolesco contabilista das areias do deserto, que recorre a todas as artimanhas para atingir os seus fins. Tudo isso é possível. Afinal de contas, todas as interpretações são um exercício de escolha múltipla. Mas uma mulher não se pode dar ao luxo de dissecar todos os elogios que lhe são dirigidos, sob pena de morrer de verdade ainda antes de atingir a menopausa. Não, minhas amigas, nem todas as pequenas comédias da vida de uma mulher têm de ser convertidas em tragédia. O jovem apelidou-me de deusa e eu, rapariga do campo, acreditei. E foi assim que deslizei suavemente sobre carris invisíveis todo o santo dia. É verdade que houve uma contrapartida, mas valeu bem a pena. Foram os cinquenta cêntimos mais bem empregues dos últimos dias.