15/05/2018

O verde da planície


- Ah, ele era o homem mais bonito que eu vi na minha vida – suspira Dona Adosinda com um ar sonhador, enrolando uma madeixa de cabelo branco.
O contraste do gesto, tão jovial, com as suas mãos rugosas dá-me vontade de a abraçar, de lhe emoldurar as memórias, que vão desaparecendo sob as camadas de pele cansada.
- Às vezes sonhava com ele. De tão real que era, quase que sentia a mão dele sobre a minha. O calor do seu corpo a fazer parte do meu.
Dona Adosinda interrompe o monólogo. Curvando-se sobre a mesa de centro, pega na chávena de chá e sopra o líquido quente e aromático. Bebe dois golinhos. A chávena a oscilar no pires, num mar ondulado de tremuras, desperdiça umas gotinhas de chá, como a vida faz com alguns amores.
- Os meus pais eram contra o namoro, porque o rapaz era de outro nível social. E eu tive de me conformar. Não podia fazer nada. Passei dias muito tristes. Sentia uma dor aguda no coração. Mas, depois, tudo passou. Os meus pais arranjaram o casamento com outro rapaz e eu não tive outro remédio senão aceitar.
Imagino-a muito jovem e desgostosa com aquele amor estrangulado. Consigo vê-la a debater-se para aceitar os conselhos assisados dos pais e conter a revolta que tinha de ser esquecida e perdoada. Naquele tempo era assim.
- Quando nos casámos, éramos dois desconhecidos. Se me perguntar como foi o meu primeiro ano de casamento, não lhe posso dizer que tenha sido mau. Mas foi melhorando à medida que os anos foram passando. Sabe, tive sorte. Casei com um homem muito bom…
Lá fora, o sol roça ao de leve o vidro da janela. Dona Adosinda suspira e estica repetidamente o pano verde da saia sobre os joelhos. Fita-o como se contemplasse uma extensa planície verde. E eu penso como o nosso coração está cheio de paisagens.
A mão, onde brilham duas alianças no anelar - a do falecido marido, mais larga, presa por um fio transparente à dela para não se perder - continua a puxar a saia, incansável, num compasso afinado com a mão direita, como se quisesse esticar as memórias.
- Não me foi dada outra escolha. E eu fiz o melhor que pude…
Olha-me com olhos cobertos por uma fina película de humidade. Depois, num pio ténue de ave, solta um resignado É a vida. Tento dizer alguma coisa, mas não encontro nenhuma palavra que sirva de consolo. Um sorriso doce amenina-lhe agora o rosto. De cabeça curvada, fita novamente a planície verde da saia, onde, certamente, uma flor de amor grande sobrevive numa interminável quietude. Há verdes que duram uma vida inteira.

Outubro, 2015