05/05/2018

Podíamos ser nós


A PLAUSIBLE FINISH

Corro pela vida como quem não quer estar nela. Sou toda feita a fugir ao que não se pode escapar. Fujo de casa dos pais, fujo da cidade onde nasci, fujo do meu país, fujo da minha língua, fujo daquilo em que falho, fujo a achar que hei-de conseguir despistar a própria fuga numa curva, que hei-de correr mais do que a minha cabeça atrás de mim.
Corro e fecho os olhos, e vejo bem para onde estou a correr, vejo como se estivesse lá. Sinto o ar quente de uma manhã de verão a tocar-me a pele, o mar nos pés, o cheiro dos meus filhos, o amor como uma inundação pela vida. O meu futuro habita uma felicidade que nunca toquei, que invento. Uma felicidade para que me adio. Atravesso a vida de olhos fechados à espera de bater contra algo que a faça valer pelo que é, que a faça bastar.
Corro, a cabeça às voltas com promessas de coisas guardadas algures em caixas à minha espera. É isto a fé. Uma fé em mim e nos outros, no mundo. Uma fé de verbos imperativos em loop. Uma fé-fé, sem razão e que não precisa de razões. Uma fé-arma para os dias negros em que corro com a cama às costas pela maré da solidão.
Corro cheia de pressa em direção a uma parede, nos pés o desespero. Vou para escapar à dureza dos dias e ao peso do mundano e do capital e do corpo e do escape mas escapo ao presente, escapo a quem sou. Fugir é não existir, é ir pela vida em diagonal na esperança de a encontrar numa curva sem ver que ela me acontece enquanto lhe fujo lhe digo que espere que não seja que me estou a preparar que ainda não é a sério. Sou um fantasma de um ser por vir. E não venho.
Chegar é afinal estar. Eu nunca piso nenhuma margem, nunca sou senão corrente. Vou a achar que vou para perto de mim como se eu pudesse não estar sempre comigo. Vou e perco tudo o que me acontece no caminho, tudo o que atiro para margens a que nunca chego. Corro pelo tempo e não o apanho.
Páro, agora páro. Páro, agora páro. Páro, agora páro. Uma vertigem sela por mim a dentro a real cor das coisas reais, das coisas sem o movimento do meu olho veloz por elas, e da minha presença concreta. Páro, coragem até aos joelhos.
Os momentos sucedem-se, e eu sou o que sou.
Páro e é o tudo que passa. Que o passar seja grande.

Sónia Balacó, in Constelação

[Obrigada, minha querida Susana, por tão bonito presente. Ambas sabemos que temos duas vidas, a que vivemos e a não-vivida. E que para nos salvarmos, temos de viver também a segunda, que é a que está mais perto de nós. Só ela pode redimir dias inteiros de dor, incerteza e dúvida. Nela, está o bocadinho de poesia que nos habita, o sentido com que estabelecemos um elo com o mundo, que é a nossa possibilidade de futuro. Podemos chamar-lhe fé, esperança, candura, até credulidade ingénua. Não importa. A vida feita só de lucidez é uma flor seca perdida. Às vezes, é preciso sorrir com uns lábios cor de cereja para ver flores que não existem, para apanhar um pouco de sol numa varanda estreita, porque a vida é um compromisso, uma delicada filigrana feita de lucidez e candura.]