01/05/2018

Rita


A duração das coisas não pode ser medida pelo calendário, sobretudo quando entre o princípio e o fim há horas sem relógio, tonalidades diferentes, às vezes, um vento amarelo-dourado sem estações. Nem tudo pode ser medido. Um malmequer vive um mês, um efémero mês, mas na sua corola perdura a beleza de uma vida. Se o recordarmos, prolonga-se ao longo de cada instante. Uma vida é sempre mais do que duas datas no calendário. Por mais breve que tenha sido, o valor e o sentido dos seus dias está contido no espaço em branco – simbolizado por um hífen - entre a data do nascimento e a data da morte. Hoje, a Rita faria anos. A Rita era muito minha amiga. Tenho-a tão presente em mim que parece que a vi ontem. Retenho os seus gestos, os trejeitos que fazia enquanto sorria, como se lhe estivesse a ocorrer uma ideia súbita. Era confiante, suave, solidária. O seu sorriso era uma nascente de alegria. Tinha olhos acesos que abriam caminho com uma força tranquila. Sabia colher flores sem as estragar. A última vez que estivemos juntas foi num fim de tarde, numa esplanada virada para o mar azul-escuro cintilante. Festejávamos a nossa entrada na universidade. Eu não sabia ainda que daí a poucas semanas nunca mais a voltaria a ver, que ela desapareceria numa fresta do horizonte, junto ao mesmo mar. A Rita tinha duas grandes paixões: o namorado, o amor da sua vida, e tocar Chopin. Vivia mergulhada em música e dava explicações para pagar as aulas de instrumento. É assim que gosto de recordá-la. Com música. Porque talvez só a música consiga expressar sem palavras todos os cambiantes de uma vida. Um acorde arpejado. Um bosque de momentos. O claro-escuro. A doçura. A melancolia. O feixe oblíquo do sol a incidir no azul-escuro cintilante ao entardecer. E as nuvens a correr sobre o mar, como cortinas sobre um palco.