04/05/2018

Shipwrecked 1907 Heidseick


Na esplanada da Sacolinha, na mesa à minha direita, uma mulher alta e loura afaga um cão muito pequeno, tão pequeno, que parece emergir dos seus braços, como se fosse um boneco. Diz à amiga que o Luís é muito bom, muito melhor do que o Francisco, o anterior, acrescenta num tom mais baixo, não, o Francisco não valia muito, para o fim, quase que só servia para lhe aquecer os pés, este, o Luís, o atual, pelo contrário, para além de ser mais novo, tem um coração ardente, um rosto perfeito de estátua grega e umas mãos de anjo, e ela só tem vontade de se enrodilhar aos seus pés, como um animal que ama o seu dono. E como cheira, benza-o Deus, um perfume acre e marinho, capaz de fazer perder a cabeça a qualquer mulher. Cala-se por instantes para tirar um cigarro da carteira com os dedos carregados de anéis. Acende-o com um isqueiro de ouro e, depois de expelir o fumo, atira as demolidoras palavras que pesam como chumbo, entre um Raposeira e um Shipwrecked 1907 Heidseick, é fácil escolher, não é? E eu penso que a maioria das pessoas é assim. Desliga-se de uma pessoa, mas logo surge outra, à laia de consolação. Renuncia a pessoas, mas não renuncia ao prazer, trocando-o apenas por outro. É assim que funciona. Valemos tão pouco, não é?