25/05/2018

Sozinho com os jornais


Num banco de jardim, um homem tem o rosto mergulhado no jornal. Vejo-lhe apenas um tufo de cabelos eriçados, brancos, e ouço-lhe a voz, ligeiramente esganiçada, que entoa um fado. O jardim está quase deserto, a noite prestes a cair, a luz pálida do sol é engolida pelas árvores. Tenho o carro estacionado do outro lado do parque e percorro apressadamente o caminho de terra batida a pensar no jantar. Assim que ouve os meus passos, o homem espreita por cima do jornal e cumprimenta-me. Eu retribuo a saudação e vejo os seus olhos engelharem-se num sorriso. É então que ele se levanta e me pergunta se me pode acompanhar até ao portão. Eu, ainda que receando que o seu verdadeiro propósito seja cometer alguma imoralidade, não quero ser indelicada e acabo por aquiescer, mais por prudência do que por bondade. Reparo que tem um casaco de malha vestido, apertado de forma errada, e umas calças cinzentas demasiado curtas. Pelo caminho, ao compasso dos seus passos morosos, conta-me que é viúvo e que, para espantar a solidão, passa os dias fora de casa, andando de um lado para o outro, no café, no supermercado, no jardim. Não tem muitas pessoas com quem falar. Mas agora vai para casa. Pôs feijão de molho para fazer uma sopa. Batendo com o jornal feito canudo na palma da mão esquerda, fala-me da partida que o coração lhe pregou há tempos e dos hábitos de que foi obrigado a abdicar. Deixou de fumar e de beber álcool, levando agora uma vida que teria deixado a sua Amélia, a santa que vela por ele no céu, muito orgulhosa. O único costume que conserva é ler jornais. E eu imagino a sua existência curvada sobre notícias, títulos e letras redondas, a sua mais fiel companhia. Mas sabe, diz-me ele, fechando o portão atrás de si, o sobrolho carregado, a voz adquirindo uma solene gravidade, no estado em que o mundo está, são os jornais que me estão a matar lentamente.