08/06/2018

Contrato


Na sala de espera do consultório, cheia de desconhecidos, há uma atmosfera de festa. O rádio está sintonizado numa estação comercial, uma criança balança a cabeça ao ritmo da música, a mãe folheia ruidosamente uma revista, uma mulher conversa com outra sobre casamentos e namoros. Os restantes navegam por outros mares, imersos nos ecrãs dos telefones. Na receção, a funcionária fustiga o ar com as suas gargalhadas. Ao meu lado, uma senhora de cabelo arroxeado enceta conversa comigo. Tem uns olhos muito expressivos e irradia uma grande intensidade na forma como fala e sorri. Conta-me que vem apenas mostrar as análises ao médico, que já sabe que os valores estão todos bem, felizmente, mas que a filha se preocupa muito com ela, que insiste para que tenha mais cuidados, que não ande de transportes, que não caminhe tanto por causa das quedas, mas que ela, por enquanto, não tenciona abdicar do seu estilo de vida, apesar das limitações impostas pela idade. Diz-me que envelhecer é um mergulho profundo. Envolve muita coisa. Mas passear, ir à praia, visitar uma amiga, ler, pintar, dão-lhe imenso prazer. Também gosta de se retirar, de estar sozinha, para perceber “quem é”. Enquanto fala, observo-lhe as mãos de veias salientes, que procuram constantemente a pequena cruz pendurada num fio. As pessoas, continua, têm vidas difíceis, correm de um lado para o outro, sempre apressadas, a olhar para o chão ou para os ecrãs. Andam muito distraídas, indignam-se com tudo, não percebem a subtileza das coisas. Por isso, tornam a própria vida ainda mais cruel. Cumprem religiosamente todos os compromissos, mas falham o mais importante, que é estar a sós com a própria alma. Retira da mala um caderninho azul-turquesa e conta-me que o traz sempre consigo. Nele, desenha caras, aponta nomes, transcreve frases. Todos os dias, vê muitos rostos alheados, ausentes, o que é uma pena, porque a vida é tão preciosa, passa num instante, como a sombra das nuvens a correr. Tem um amigo num lar de idosos. Aquilo é uma sala de espera para a morte: o vazio por trás das pálpebras cerradas, os dias que se transformam em cinza, a televisão permanentemente ligada, a natureza sem história. Visita-o regularmente, uma, duas vezes por semana, e conta-lhe as histórias daquilo que vai vendo por aí. Confidencia-me que muito do que lhe conta é uma invenção. Mas assegura-me que inventar é um bom jogo. Por breves momentos, fá-lo desenrugar o cenho, esquecer a solidão, ter esperança na humanidade. Nesta humanidade. Enquanto se endireita mais na cadeira e olha para os espessos novelos de nuvens através da janela, diz-me que o paraíso terrestre está aqui e agora, enquanto temos alguma saúde, enquanto podemos sonhar os nossos sonhos, podar rosas, abraçar um ente querido, olhar a casca vermelha de uma árvore ou os olhos castanhos e sedosos de um animal de estimação. Sabe que está velha, sente mais o frio, que é uma espécie de cobertor de morte. Mas esse é o preço a pagar pela longevidade. A vida é um contrato com data de validade incógnita, que assinamos connosco mesmos. É um contrato muito difícil de seguir e de cumprir. Porque a verdade é que todos queremos envelhecer, mas ninguém quer ser velho.