07/08/2018

Dona Renata


Fico triste por já não ver a Dona Renata lá pelo átrio do prédio, com os seus olhos cor de avenca, as velhas pantufas deformadas e a incansável vassoura a perseguir poeiras invisíveis. Tanto pó que as pessoas trazem agarrado à sola dos sapatos, clamava. E eu anuía, limpando ostensivamente os meus no tapete da entrada para cair nas suas boas graças. Em boa verdade nada daquilo era necessário. Nem ela precisava de varrer a entrada, pois havia quem fosse pago para o fazer, nem eu precisava de cair nas suas boas graças, uma vez que sabia que simpatizava comigo. Trazia-me muitas vezes fatias de bolo ainda morno, acabado de sair do forno, verduras e flores. Os meninos vão gostar, são muito tenrinhas, eu sou sozinha, não gasto tudo, lembrei-me de si, dizia-me. Andava sempre ocupada, a cirandar de um lado para o outro. Nas compras, nas visitas, nas limpezas, nas mil e uma coisas que inventava para as suas mãos sôfregas. Era o seu modo de sobrevivência secreto. Não sei precisar quando se deu a mudança. Pode ter sido por altura da chegada da primeira andorinha na primavera, dos primeiros ventos desabridos ou quando os jacarandás começaram a deixar cair as primeiras flores. Nunca sabemos muito bem quando as coisas começam, sobretudo, quando se passam nas profundezas de uma casa. Não há aparato. Apenas um desvanecimento gradual. É por isso que, às vezes, as memórias se inventam umas às outras. Mas a história de uma pessoa, ainda que única, é a história de todas as pessoas. Vai-se perdendo uma ou duas coisas, esquecendo e abdicando de outras tantas, o cerco vai ficando mais estreito e, um dia, dá-se a derrocada de toda a precária ordem que equilibrava uma vida. Quando os dias são pautados por uma ausência de propósito e todos os lugares se tornam impossíveis, fica-se corpo a corpo com o que mais se teme. Agora sou eu que lhe levo uma fatia de bolo, uma sopa, um sorriso. Mas pouco posso fazer. Encontro-a sempre alheada, amarga, triste. Há dias, quando lhe levava um raminho de hortelã fresca para um chá, abriu-me a porta com um lacónico cumprimento, sem conseguir controlar a tremura das mãos. Tinha as faces húmidas e, a um canto do olho, uma lágrima que ficara por limpar. Às vezes, conseguimos sentir a dor de outra pessoa, se soubermos onde é que ela dói. Naquela lágrima pequena, do tamanho de uma pedra de sal, havia o sabor de um mundo inexoravelmente perdido.