05/08/2018

Ponto de chegada


Foi quando o mostrador do carro indicava 46,5 °C que decidi parar. O mundo parecia inerte, liquefeito, atordoado. Entrei num restaurante à beira da estrada e, com o corpo mergulhado numa paz indolente, deixei o espírito à deriva, a saltitar pelas mesas, pelas conversas, pelas pessoas. Um homem, alto e gordo, de rosto afogueado, as calças seguras pela pressão da barriga volumosa, entrou na sala acanhada a passos largos, parecendo encher o espaço. Sentou-se com um baque surdo ao lado da mesa onde uma menina, com um cotovelo feliz como a asa de um passarinho, acabava de fazer tombar um copo de água. Com um bocado de pão a inchar-lhe a bochecha, a mãe endireitou o copo e ordenou à filha que comesse. O pai, de cabeça baixa, nem reparou no incidente, a boca sempre a rasar o cozido. A criança começou a picotar alegremente a gema do ovo com um garfo. Diligentes, suados, incansáveis, os dois empregados atravessavam a sala com bandejas fumegantes e garrafas de água gelada. As famílias sentavam-se e levantavam-se, chegavam e partiam. Todas davam mostras de cansaço e impaciência. Os ponteiros do relógio marcavam o início das férias.
Naquele local de passagem, naquela terra de ninguém, um Non-Lieux como diria Marc Angé, havia uma mesa que tinha um ângulo de genuína felicidade. Nela, um homem contemplava com toda a ternura do universo o rosto de uma mulher, da qual eu via apenas uma cortina de cabelos louros. Não era preciso ver mais nada. Bastava-me vê-la através dos olhos dele, carregados de paixão. De todas aquelas pessoas, desejosas de seguir viagem, ávidas de praia e do gargalhar das gaivotas, ele era o único que parecia não querer ir a lado nenhum. Aquela mulher era o seu destino, o seu ponto de chegada. Mais tarde, ao sair, pude ver o rosto dela. Era muito bonita, com uma boca em forma de coração. Na rua, deixei-me flutuar no calor até ao carro. Se não fosse aquele olhar, aberto a rotas secretas, eu não teria escrito este texto. E não me teria recordado de todas as coisas que eu própria não soube viver.