01/08/2018

Rosa-de-jericó


Não há consolação para tudo. Não há. Mas Amélia sabe que é preciso deixar-se levar pela vida para que nela se possa viver. Continua a usar sapatos de saltos altos e finos, roupa garrida, e a cobrir as pestanas com espessas camadas de rímel. Os cabelos, cada vez mais finos e quebradiços, estão sempre bem lavados e penteados. Enceta conversa com toda a gente. Ri-se muito, denotando uma boa disposição que vai para além da mera troca de cortesias. Os amigos e conhecidos nada compreendem do seu desacertado ânimo para a vida. Como pode ela ser assim? Porque não repete a esperada litania? Ela, que num só ano, perdeu o marido, a mãe e um irmão? Que incomensurável capacidade de resistência é aquela? 
Cada pessoa é um intrincado emaranhado de contrastes. Nada sabemos do que existe sob a sua aparência. Contudo, insistimos nas evidências observadas através de vidros embaciados, determinando o que o outro deverá sentir em situações que nós próprios não vivemos. Esquecemo-nos que, debaixo do céu, há um peso certo para cada momento, que nenhum coração bate num contínuo lamento vivo. Há sintonias. Há a vida que pula subitamente para dentro do coração, fazendo-o desabrochar numa comoção alegre. Há momentos em que os olhos se abrem para a espessura do mundo. Há uma vibração, uma garganta que estremece, uma voz que se eleva entoando o início de uma canção relembrada. Mais do que uma vontade, há um surgimento orgânico, um ímpeto ardente, o sangue que corre nas veias. É assim que a dor se refugia no riso que rasga os dias. Porque é com as fibras da dor que o corpo espanta a morte. E o riso às vezes é uma voz de socorro. Não é preciso inventar nada. Se calhar, sobreviver é aceitar permanecer vivo apesar da tristeza, da solidão e do amor perdido e, quem sabe, ansiar secretamente regressar um dia a uma margem azul para imitar o inconcebível destino de uma rosa-de-jericó.