9 de abril de 2021

8 de abril de 2021

A semente que deixas

Na mulher de vestido azul-claro há uma pausa de longos minutos, o corpo magro debruçado, os olhos percorrendo devagar as plantas do supermercado. Em seu redor, as pessoas formam uma sucessão de imagens iguais, apressadas, todas metidas no seu mundo. Vejo do expositor das revistas como estende o braço, pega numa delas, examina-a mais de perto e, com os dedos, apenas com a ponta dos dedos, toca levemente nas folhas amareladas, na haste torcida, no único e débil rebento. Satisfeita, segura da sua decisão, deposita-a com especial cuidado no fundo do carrinho de compras. Tem ombros frágeis, mas mãos com dedos curtos e grossos. Escolheu a planta mais improvável, aquela que, quase morta ou apenas adormecida, aguardava talvez o calor tépido de um toque. Não me contenho e interpelo-a, confessando a minha estranheza. Fita-me com uns amistosos olhos azuis, mais pálidos que o vestido, e, sorrindo, diz-me que só compra plantas doentes, que gosta de cuidar delas, mudá-las de sítio, descobrir o melhor lugar de exposição ao sol, para fazê-las renascer. Vem-me então à ideia um pensamento, tão leve como a semente que originou aquela planta, mas que me ocorre sempre nestas ocasiões. Acreditar que somos capazes de pequenos milagres, do mesmo cuidado que o jardineiro reserva às flores mais frágeis do seu jardim, é o que faz a vida valer a pena.

7 de abril de 2021

Bichos-da-seda e suculentas

Aproximo-me da funcionária que parece ter a cabeça cheia de números e nomes. Reparo que tem uma cruz de ouro ao pescoço e um sinal em forma de meia-lua na ponta do nariz. Sem sair do seu mutismo e sem desviar os olhos do ecrã do computador, pergunta-me quem sou. E eu, que me acontece estar onde não estou, distraída da formalidade do lugar, respondo com a maior das naturalidades, Pois, depende de com quem estou. Se com a minha mãe, os meus filhos, o meu amado, os meus amigos, os gatos, os vizinhos, o meu cabeleireiro
Termino propositadamente com reticências para sugerir o presumível emaranhado de fios que compõe a minha identidade, tecida como um ovo de bicho-da-seda. Ela desvia o olhar do computador e sorri, baralhada, sem saber se deve rir ou ofender-se. Estará ela ciente de que se trata de uma pergunta que ninguém saberá responder ao certo?, pergunto-me, enquanto observo uma pequena suculenta que, a um canto da secretária, ostenta o nome científico numa peça plástica espetada na terra. Decido-me então por uma conclusão agradável. Bom, se até as plantas já nascem e crescem com uma etiqueta, quem sou eu afinal para estar aqui com casulos e fios embaraçados? Abandono o íngreme terreno da reticência existencialista e, numa sintaxe bem mais simples, finalmente convertida à minha plana e ficcional unidade de cidadã, pronuncio o nome completo, que é prontamente secundado por um triunfante bater de teclas.

6 de abril de 2021

Opereta em calçada portuguesa

Parou o carro abruptamente sobre a calçada e saiu, muito alto e gordo, fato preto, cabelo negro, brilhante, penteado para trás, um corpo de cantor de ópera. Com um esticão, puxou as calças para cima da proeminente barriga, endireitou as costas curvadas e, sobre o ombro, lançou um olhar feroz sobre o homem que andava por ali, a fazer pela vida, colocando folhetos publicitários no para-brisas dos carros estacionados. Depois, sem qualquer ambiguidade criativa, começou a cantar raiva e hostilidade, com as vogais todas abertas, como numa ópera italiana. Não se aproxime que eu não quero vender o meu carro!, entoou ameaçadoramente, três vezes. O homem dos panfletos deteve-se, concluindo que só podia estar a falar para ele naquele tom nada cordial. Por fim, cada vez mais incomodado perante a veemente tensão dramática do solista, ele que estava só a fazer o seu trabalho, virou as costas e atravessou a rua para o outro lado, continuando a distribuir os prospetos, que, sem que nada o fizesse prever, tinham servido de libreto àquela má ária. Como era de esperar, não houve aplausos nem vénias. Eu assisti a tudo isto do camarote da minha janela com vista sobre as árvores. E do que vi, uma rua escurecida pela falta de empatia apesar do sol já subido no céu, só os pequenos rebentos das olaias, que crescem com verde paciência ao lado dos vistosos cachos rosados, me transmitiram esperança.

5 de abril de 2021

Afetações e disposições

Os cheiros misturam-se no sol morno da tarde e a nova estação acumula-se nas flores do jardim. Uma criança corre à volta das árvores de copa quase cheia, agitando as mãos como pontas de asas. A mãe, animada e saltitante, encaminha-se para o lago dos peixes, comentando ao telefone que agora é que vai levar a vida para a frente e recuperar o que ficou para trás. E enquanto ela fala da vida como um relógio que dá horas atrasadas, eu penso na vida como um ciclo nietzschiano.

16 de fevereiro de 2021

15 de fevereiro de 2021

Cupidos

Todos sabemos que os pássaros não são da cor do vento, que os sorrisos não iluminam a noite e que os amores riscados nas árvores não duram para sempre. O que ninguém duvida é que o amor pode fazer filhos. E os caracóis, esses bichinhos caseiros, capazes de passar vidas inteiras fechados em casa, conhecem melhor que ninguém a imperiosa e pungente força procriadora. Ainda antes do Cupido, já eles, munidos de arco e flecha, subiam montes e atravessavam flores de trevo e ditosos malmequeres para cumprir a promessa que intuíram ao nascer. Por uma característica bem natural, estes moluscos terrestres são cupidos infalíveis. Quando os dias começam a crescer, deixam o seu recanto de sombra e põem-se a caminho, casa às costas, tentáculos no ar e uma vontade férrea de ir até ao fim. Afinal de contas, a vida é preciosa e, ao mesmo tempo, tão pequena, tão fácil de começar e tão fácil de acabar. Quando chegam perto do alvo, esfalfados e lustrosos, insuflados de desejo, não tardam a disparar uma espécie de seta, um estilete que é inserido com precisão na carne macia do parceiro. Esta seta chama-se dardo do amor ou gipsobelo (à ciência falta sempre poesia) e possui substâncias que promovem a fecundação. Ao contrário do Cupido, falho de perícia e pontaria, tantas vezes malicioso nas combinações que urde, criador de um mundo de perpétuos desencontros, onde tanto se sofre e ama, onde tantos corpos querem partir e outros querem ficar, no reino dos caracóis não há setas atiradas para o ar, flechas perdidas ou aproximações sem destino nenhum. Talvez o segredo resida mesmo na lentidão, pois como diz o ditado, a pressa só é útil para apanhar moscas

 

Andy Reynolds