quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

As calças misteriosas



Hoje, quando saí de casa cedo para ir ao ginásio, reparei que à porta da casa da minha vizinha do lado havia umas calças de homem caídas em cima do tapete. Naturalmente que achei aquilo estranho, mas, àquela hora da manhã, não quis importunar a minha vizinha. Enquanto caminhava pela rua, ia refletindo acerca daquele inesperado achado. De quem seriam aquelas calças? Quem as teria lá deixado? Para adensar o mistério, a minha vizinha é viúva e não costuma receber visitas masculinas. Além disso, não tem filhos.
Quando regressei a casa, dei imediatamente pela falta das calças. Tinham desaparecido de cena. Quem as teria recolhido? A minha vizinha? O dono? A quem pertenceriam? A arder de curiosidade, não resisti e toquei à campainha da minha vizinha, ansiosa por ver o mistério finalmente desvendado. Mas ninguém atendeu. Resignada, entrei em casa. Fiz um chá e sentei-me ao lado do Biju que veio logo enroscar-se nas minhas pernas. Mas os pensamentos estavam indomáveis agora que a minha curiosidade tinha sido espicaçada. Aquele mistério não me saía da cabeça. Agora que pensava no assunto, chegava à conclusão que a minha vizinha andava diferente. Saía mais, vestia roupas mais garridas e até me queria parecer que sorria mais nos últimos tempos. De certeza que andava ali passarinho na costa. Teriam as calças sido atiradas com urgência para o chão? Num ato de desvairada loucura? Despertei destes desvarios e chamei-me à razão. Tem juízo que já tens idade para isso. O que tens tu que ver com a vida da tua vizinha? Vá, embrenha-te na tua vida. E assim fiz.
Ao fim do dia quando ia pôr o lixo, cruzei-me com a dita vizinha. Indecisa, sem saber muito bem como abordá-la em relação à questão das calças (ainda ensaiei mentalmente um “alguém se esqueceu de um par de calças de homem à sua porta”), limitei-me a dizer:
- Hoje de manhã vi uma peça de roupa caída à porta de sua casa, mas como era muito cedo, não quis incomodá-la. No entanto, quando regressei, já lá não estava.
- Ah, está a referir-se a umas calças de homem.
- Pois… não sei. Não deu para ver o que era - disfarcei.
Seria agora, num vão de escada, que a minha curiosidade seria finalmente satisfeita?
- Imagine que fiz a bainha das calças do marido de uma amiga minha. À noitinha ela passou por minha casa para ir buscá-las, mas quando saiu, não deve ter reparado que não as enfiou bem dentro do saco e elas caíram no chão. Esta manhã quando me preparava para ir às compras, encontrei-as em cima do tapete. Felizmente que ainda lá estavam.
Caros leitores, não era realmente este o desfecho que eu estava à espera. Tinha imaginado algo mais licencioso. Mas, enfim, a imaginação superou uma vez mais a realidade.


12 comentários:

  1. A menina tem uma grande imaginação! Afinal, a explicação era muito simples.
    Emília

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    1. Emília, eu sei que tenho uma mente muito fantasiosa ;)

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    2. E maliciosa, acrescentaria eu...
      António

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  2. Adorei a história e a maneira como criou uma história de suspense divertida a partir de uma observação banal. Estou a adorar seguir o seu blog.
    Filipa

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    1. Obrigada pelas palavras simpáticas!

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  3. eu é que não gostava de ser sua vizinha (estou a brincar)! Adoro o seu humor malicioso.
    Lurdes

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    1. Lurdes, muito obrigada pelas suas palavras. Rir continua a ser o melhor remédio para todos os males. Mas concordo consigo, tem sorte em não ser minha vizinha ;)

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  4. Umas calças de homem deixadas negligentemente no chão inquietam o espírito de qualquer mulher!
    Isabel

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  5. Tens toda a razão. Ainda por cima, eram castanhas de lã penteada.

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    1. Sempre atenta a pormenores importantes!
      Isabel

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  6. Venho cá todos os dias desde que a descobri. Gosto muito de a ler.

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